sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Distante mais próximo.

"A vida é a infância da imortalidade".
Goethe.




O Playground é o limite.

Cercado entre muros estão todos protegidos.
Alguém entrega um filme em uma locadora chamada VideoCountry.
O pequeno está junto do adulto, e percebe que sempre que ultrapassa os muros está acompanhado de alguém mais velho.

Mas os pequenos podem ser audazes,
e mesmo sem permissão podem tentar averiguar como é,
ultrapassar os limites pré-estabelecidos.
Por conta própria.

-Podem ir pela rampa.
-Podem ir pelas escadas.
-Podem ir pelo caminho das estrelas.

Ou, como todos, podem tomar um dos oito elevadores centrais que levam até o térreo.

O segurança vê quando os pequenos cruzam a portaria central e nada faz para impedí-los.
A dúvida de um adulto vencida por inocente confiança.

Ao cruzar a rua pela primeira vez sozinhos, a recompensa.
Já podem desfrutar com calma uma pizza,
da famosa pizzaria Esbarro.

Sabem desde agora como chegar em lugares mais distantes.
Chile, País de Gales, Conecticut.

Entendem que a força dos tais limites...
...não é nada comparada com a vontade comer uma pizza.



domingo, 23 de setembro de 2007

Nado sincronizado


A expressão séria e concentrada.
A pele morena curtida pelo sol através dos anos.
Os passos são curtos e econômicos.
A cabeça baixa se levanta vez ou outra,
e observa os golfinhos em seus postos.

O corpo todo para e se prepara,
Um comando sai alto da garganta:

" Primeiraaaaa..."

Seres aquáticos na beirada de uma piscina antes da explosão.

" Vai!!!"

Seres aquáticos disparando rumo à outra beirada
Fluindo neste habitat familiar.

Vez ou outra será um colega que alertará
da presença de um tubarão!
Os pequenos nadadores devem neste caso encontrar
a borda mais próxima.
Não devem perder tempo formando pirâmides ou coisas similares,
sob o risco de serem pegos pelo temível predador.

E se não longe dali alguém observa tudo
com distante atenção
sob bandeiras alvi-negras e dominós
Então tubarões e golfinhos se quedam tranquilos
Afinal o salva-vidas está por perto
Desde o início de tudo...

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Traços da Origem

"O que você deixa para trás não é o que é gravado em monumentos de pedra, mas o que é tecido nas vidas de outros."
Péricles

Jovens e velhos sob ternos e vestes formais
Caminhando pelo playground, rumo a mais um dia de trabalho.
Um velho hábito dos jovens Mirantescos- o de dormir de vez em quando nas casas vizinhas, dos amigos.
Como um grande lar.
Como uma grande família.
E como uma família tão grande os mais diversos valores.
Daqueles cada vez mais em falta no mundo de hoje em dia.
Numa casa se aprende o respeito.
Em outra se descobre a força da união.
Numa terceira entende a força da descontração e da alegria.
E na quarta o poder da lealdade.

E ao acordar numa dessas casas uma segunda mãe monta a mesa do café da manhã.
Um copo de leite gelado com chocolate da mesma marca usada em outras casas,
mas ali
o gosto é especial.

Todos sentam à mesa. Um Pai percebe a inquietação na mesa de um quinto elemento.
“Não faz nem a própria cama e quer mudar o mundo!”
O quinto elemento agradece em seu íntimo àquele mais experiente.
E observa ali próximo dentre vários homens
a simples virtude feminina
se manifestando livremente.

Um dos jovens toma o café e coloca o terno
Caminha pelo playground, rumo a mais um dia de trabalho.
Com o sorriso de sempre alguém dá bom dia
Chiquinho, o Francisco.
Porteiro do Bloco 5 que atingiu a meta,
De não ter meta alguma.
Mas a alegria está lá, o contentamento está lá.
Junto de sua nebulosa identidade secreta.
O nome “Clark” pelo qual responde a algumas pessoas
dá uma pista
para este intrigante mistério...
Se no passar dos anos se mantém amigo inabalável,
Cortês sem nunca precisar ser complexo,
É preciso ser Super.
Talvez aí esteja a única explicação.

Por isso já é sabido
Os alicerces das vidas que aqui caminham são mútilplos.
Os mais deslumbrantes adornos, providos de várias fontes
enfeitam estes sólidos pilares
Enchem de força estas vidas.
Ao ponto de não mais existir
Algo como um desafio.

Jovens e velhos sob ternos e vestes formais
Caminhando pelo playground, rumo a mais um dia de trabalho.

domingo, 24 de junho de 2007

Sob os olhos de um tatu.

"Vá até onde puder ver; quando lá chegar poderá ver ainda mais longe."
Goethe

Sob o chão encontravam-se várias tampas de refrigerantes.
Próximo a elas estavam os tubos de cola colorida.
Os quatro pimpolhos decidiam quais cores mesclariam bem umas com as outras.
Cada um tomava suas tampinhas e começavam suas obras.
Uma teve seu interior preenchida com cola vermelha. Uma gota do pigmento amarelo deu o toque especial.
E assim as mais variadas combinações.
Algumas tampinhas mais largas eram preenchidas com vela derretida para ficarem mais pesadas.
Os pimpolhos observavam o resultado.
Em um futuro se tornariam médicos, engenheiros e advogados.
E se esqueceriam que um dia foram artistas.

Enquanto as “champinhas” com cola secavam eles decidiram o que fazer.
“Vamos jogar bola!”
A animação tomou conta e começaram a chamar outros companheiros pelo interfone.
Contudo ainda em tempo alguém lembrou que era segunda feira; O salão de jogos estava fechado para limpeza!
Humm, nada que realmente impedisse a real vontade destes pequenos.
Nesta altura já eram oito e já estavam com a pelota em mãos, só não sabiam como iram passar pelo portão que estava trancado com corrente e cadeado.
O mais magrinho não pensou muito, conseguiu empurrar o portão até onde dava e neste curto espaço ele conseguiu escalar e passar para o lado de dentro.
Os outros ficaram instigados; perceberam que não passariam.
Teriam que ir pela Passagem Secreta.
Este trecho selvagem ficava entre a piscina e o muro que separava o condomínio do asilo. Apesar do nome todos conheciam a pequena trilha, tinham que passar por uma clássica goiabeira e depois por uma temível árvore hospedeira de abelhas-cachorro.
Nunca ouviu falar? Abelhas cachorros não picavam, eram piores, elas se enroscavam no cabelo de quem passava próximo à colméia produzindo um tipo único de desespero.
Ao passar dessa fase o cuidado devia ser com o vão de esgoto que se revelava neste ponto. Muitos já caíram nesta vala ao passarem correndo pela passagem secreta e tiveram com isso lesões que variavam de leves escoriações a braços quebrados.
Mas quase sempre a travessia era tranqüila e logo estavam todos reunidos na quadra de futebol do salão de jogos.
Lá pela terceira emocionante partida um segurança percebeu que haviam crianças ali.
Por uns segundos pensou como elas teriam entrado pelo portão trancado, neste instante um dos pequenos percebeu sua presença e alertou a todos.
Foi o que os salvou! Enquanto o segurança encontrava a chave para abrir o portão todos fugiam de volta pela Passagem Secreta.

Entre gargalhadas as crianças retornaram ao playground, mas a alegria duraria pouco.
O mesmo segurança dessa vez vinha correndo com dois reforços.
Os pequenos correram, sabiam que se fossem pegos poderiam tomar uma advertência ou até uma multa pela invasão ao salão de jogos.
Os seguranças estavam próximos, não havia muito para onde ir. Em um movimento instintivo todos dispararam para as garagens. G4, depois G3.
Ao chegarem na G2 eles encontraram a temível Casa do Jason, um buraco na parede do estacionamento cujo interior revelava todo um vasto lamaçal. O ar era dominado pela sujeira de um local abandonado.
Eles não tinham escolha e pularam lá para dentro. Um deles carregava uma caixa de fósforos para acender bombinhas e teve a idéia de pegar alguns jornais velhos no caminho.
Esta foi a idéia salvadora. Usando o jornal amassado como tocha os pequenos podiam agora ver para onde estavam indo, podiam ver a lama em que afundavam as pernas até o joelho.
Neste momento não importava se haviam ratos no local, afinal já era mais que provado que as crianças mirantescas eram imunes à doenças como a peste bubônica não é mesmo?
E ao chegarem vitoriosos ao final da casa do Jason, já próximos à rampa de acesso às garagens as risadas tomaram conta novamente.
Sentados na ladeira, olhavam distraídos para cima e para os lados. Algumas senhoras passeavam com seus cachorros. Neste instante alguém lembrou das tampinhas que secavam.
Era hora de voltar...
Um caminhão de lixo subia pela rampa, sem pensar muito os atrevidos meninos pularam na traseira do veículo e aproveitaram a carona.

Pequenas tampinhas de refrigerantes
Pequenas coloridas
Emparelhadas como se fossem carros de formula 1
A pista era o canteiro.
Um trajeto conhecido, o mais longo de todos!
O conhecido 48 horas.
Na emocionante corrida cada um tinha direito a três petelecos e com isso deslocavam a tampinha o mais longe possível.
Quando o veículo caia para fora da pista ele voltava para o local de onde foi dado o último peteleco.
Rampas e labirintos de terra ofereciam um desafio a mais.
E quando uma tampinha peculiar (amarela com pontos vermelhos) conseguiu com uma petelecada percorrer toda a maior reta, saltar a maior rampa de areia e ainda cair na pista todos foram ao delírio.
Já para a curva foi escolhida uma com vela derretida. O seu peso dificultava que ela caísse.
Ao final enquanto alguns caprichavam na precisão para garantir local ao pódio outros se esforçavam para passar da primeira curva.

Não se davam conta que estavam sendo observados.
Pois mesmo numa história sem desfecho.
Um tatu-bola conhece bem a terra ao seu redor.

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Passos triviais

"O único local onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário."
Albert Einstein

“Não sabendo que era impossível, foi lá e fez”.
Jean Cocteau

... e é chegado o momento tão esperado.
Hora dos preparativos finais. Checar se a corda irá agüentar o peso, se as botas são resistentes. Verificar se as pilhas da lanterna estão boas e se a ração para um acampamento de emergência é suficiente para alguns dias.
A confiança faz parte inata do caráter do explorador.
Mas ao olhar para baixo no muro que separa o Cuca Monga do Caminho das Estrelas um certa hesitação toma conta do seu ser.
Respire fundo, meu amigo, você consegue.
A descida pelo muro é tranqüila, os musgos do tempo oferecem o risco de uma queda indesejável. Nada que movimentos pensados e pacientes não possam superar.

A luz é escassa e somente a lua é generosa. A lanterna se faz necessária para não tropeçar em nada nessa grama umedecida pelo orvalho. A intuição é uma companheira nessa horas e após alguns instantes na beirada de um precipício o local secreto é encontrado. A primeira grande trilha para este jovem Mirantesco.

O Caminho das estrelas é uma passagem estreita, numa ladeira íngreme, coberta de folhas secas e musgos. Diversos tipos de insetos fazem deste local seu habitat.
Neste momento crucial não se pensa muito, só faz o que deve ser feito. Qualquer precipitação, porém, faria o corpo escorregar naquela encosta rumo ao desconhecido abaixo.
E é o que acontece.
De modo inesperado o pé perde o atrito graças ao lodo do local. O corpo todo desliza furiosamente e sem controle. A adrenalina toma conta.
Um pedaço de ferro incrustado na parede ao final do semi-túnel pode ser visto e é ele que dá o apoio necessário para frear o corpo escorregadio. Ao segurar com força no ferro um tranco brusco é provocado, e a estabilidade é finalmente conquistada.
O corpo permanece parado exceto pelo tremor provocado pelo susto.
A calma demora a voltar. O coração ainda acelerado tenta entender que já se chegou ao fim... o piso seguro da planície no final deste mítico corredor de pedra indica que o Caminho havia sido desbravado.
A cabeça se abaixa retomando o fôlego por uns instantes. Percebe estar em total segurança.
Um pequeno sorriso toma o canto da boca quando nota que venceu a primeira parte do desafio.
Mas a seriedade e o foco retornam ao perceber que a segunda etapa irá exigir ainda mais.

As estrelas no céu acima não a toa agora podem ser vistas e elas abençoam aqueles destemidos que passam por este local.

Diante de si quatro grandes blocos de pedra formando algo como uma gigante escada descendente.


Há uma enorme altura entre seus degraus.
Aqui também a mata baixa e descuidada ao redor carrega em si todo um ecossistema.
No final do primeiro monolito ao olhar para baixo percebe a altura até o segundo bloco. O medo toma conta.
Mas para isso vieram as cordas.
Ao verificar novamente se ela está bem presa o passo seguinte é descer em forma de rapel aquela rocha. Todos os tipos de pequenos animais e insetos se revelavam neste momento, lacraias, besouros, aranhas, ratos, morcegos... escorpiões.
Apesar de tudo um sentimento engraçado, essa parte revela-se fácil.
Com uma certa surpresa nota que as últimas pedras oferecem uma dificuldade ainda menor na sua descida. Nem mesmo as cordas se fazem mais necessárias.
E onde estão a glória e o triunfo de ter chegado ao final desta passagem?
Não estão por lá.
Conforme anda nas calmas e seguras terras finais a sensação é outra.
O que se ganha é outra coisa.
Quem realiza um trabalho faz muito. Quem realiza um trabalho após o outro pode fazer qualquer coisa.
E ao chegar ao final do Caminho da Força descobre inevitavelmente,
Que não estava realmente buscando alguma coisa.

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Das canções


Parte 1- Batalhão.

Batalhão lhão lhão, aproveite a ocasião
Quem não entra é um bobão.


Dona Jailda balança a corda que está amarrada pela outra ponta no poste de luz
entre o bloco 4 e 5.
Cinco pequenos esperam o momento certo de entrar e pular a corda.
O primeiro se arrisca e consegue entrar. Segue o ritmo saltando toda vez que a corda passa por baixo dos seus pés.
A segunda é uma menina que também consegue. Ela é uma das tantas Marianas do condomínio e mostra a todos que isso não era brincadeira só de menino.
O terceiro e o quarto entram juntos e ambos são arrastados pela corda ardilosa.
A brincadeira recomeça. Dona Jailda volta a balançar a corda.
Os três remanescentes entram juntos e ficam até o final da primeira parte da música, passam à segunda fase.

Abacaxi xi xi, quem não entra é um saci.

Todos sorriem. Dona Jailda ao ver que as crianças se esforçam para não perder a concentração e os próprios infantes por perceberem que estão avançando no desafio.
Os saltos são sincronizados. A corda passa um pouco acima da cabeça dos pequenos e desce violentamente tentando passar uma rasteira.

Beterraba raba raba quem não sai é uma diaba.

A Mariana pula fora e consegue fugir no momento certo. Os meninos não encontram este momento e ao tentar escapar só conseguem ser derrubados...
Mariana debocha dos meninos. Uma menina venceu a brincadeira! Os meninos tentam ignora-la mas sabem que não será possível.
“ Futebol?”, sugere um deles, tendo a aceitação imediata dos outros meninos.
Mariana percebe um sorriso no rosto da tia Jailda enquanto ajuda a jovem senhora a enrolar a corda.
Ponto para as mulheres.

Mas os meninos já haviam desenvolvido um certo orgulho, e a vergonha da recente derrota iria se transformar em provocação a um rapaz mais velho que passava lá longe.
O foco da piada seria o corpo do rapaz que teoricamente possuia um formato peculiar.

Parte 2- Provacação.

Pêra tchu pêra tchu pêra... Pêra tchu Pêra tchu pêraaa... pêêêra tchu pêra tchu pêraaa.

Correria, os meninos correm gargalhando e logo não se escuta mais nada.

Mariana se despede de Dona Jailda e permanece parada num devaneio.
Logo nota um dos meninos que vem vindo caminhando e chorando.
Ele parece não notar a menina, está totalmente tomado pela emoção.
Ela por sua vez nota que o menino foi mordido na testa, sim, agora ela entende que aquela canção provocativa ouvida a pouco teve uma conseqüência inusitada.
O pobre garoto acabou de receber na própria testa o temível Metropol.
Com vergonha redobrada decide que é hora de ir para casa.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

A mitologia quando ruge.

A manhã se revela, os olhos se adaptam.
O corpo se alonga, a mente se acostuma.

O café da manhã hoje será simples, a fome é outra.
As roupas são parte da expressão individual, e neste momento isso não importa.
Qualquer uma vai servir.

O elevador responde ao chamado, abre as suas portas.
Só que quando os músculos ainda estavam em desenvolvimento,
nunca se tomava o elevador.
A escada era a escolhida.
Os saltos eram o mais altos possíveis.
Ao pousar no solo já se preparava para o próximo pulo.
Várias seqüências de sete degraus, até chegar no térreo.
Aprendia-se a voar.
Exceto quando não caia e quebrava uma perna.

E ao chegar no playground o mesmo piso de sempre:
Pedras portuguesas formando blocos alvos, negros e rubros.
Entre cada bloco há uma pequena área para as crianças.
Entre o bloco 5 e 6 havia a casinha.
Hoje em dia só sobrou a armação de metal.
O moço segue até o morro.
Em seu ombro o papagaio.
Inesquecível a felicidade do amigo pássaro ao ver aquela pequena porção de natureza.
Que maldade foi mantê-lo por tanto tempo morando em um apartamento.
Mas após 40 anos na família, vivendo de casa em casa ele não sobreviveria em liberdade... disse alguém tentando se enganar.
O Lilico ficava tranqüilo solto na goiabeira, o moço olhava ao redor
O moço olha ao redor.
E a presença da Mitologia Mirantesca está no ar.
Afinal,
O Eurico cria golfinhos no aquário da sua casa.
E o Feijão possui uma bolhinha de gude que fala.
Pior para o pobre baiano,
Que ficou pendurado pela cueca no galho daquela pequena árvore.
Ou pobre daquele que tomou um tiro de sal,
por roubar uma fruta do asilo.

O jovem é um adulto e é um velho.
O velho ri do jovem que tenta empurrar a vida ao seu limite.
Ri da invenção do Ciment Board.
Um pedaço fino de madeira que servia de prancha, para deslizar radicalmente na rampa entre as Garagens G2 e G1.
E o jovem ri do velho, nem sempre com respeito, infelizmente.
“Não há limites”, dizia zombeteiro o infante.

E com este espírito novamente uma reunião.
Todos no canteiro entre bloco 4 e 5.
Uns 10 sentados no canteiro e um na frente pensativo.
Ele olha para o grupo, levanta a cabeça de modo desafiador.
A eletricidade está no ar, algo está prestes a explodir.

“Brasil declara guerra, contra...
... França!!!”
Neste momento um caça francês parte em seu encalço.
Persegue por quilômetros ao longo do canteiro aquele atrevido.
Sem nunca chegar a alcançá-lo.

domingo, 22 de abril de 2007

Acordar e olhar.


De uma janela vê as pequenas casas pobres
Do outro a linha do mar.
Numa geladeira uma fruta, uma maçã doce e suculenta.
Admirável hábito, este de ir descalço para o playground comendo uma fruta diferente.
As sensações estão estimuladas com o roçar da pele do pé no chão.
A maçã inebria o paladar.
Os colegas correm aparentemente sem um sentido definido.
Um grupo é a polícia.
Os outros são os ladrões.
Quem eu quero ser hoje?
Não importa, logo eu corro, e esqueço que no futuro irei questionar o porquê.
De qualquer coisa...
Todos se cansam após sete horas de corrida. As falas não tem sentido.
As gargalhadas tomam conta.
Quando o fôlego retorna alguém encontra uma lista telefônica, jogada pelo chão.
A lista é arremessada sob o novo grito “ Prejú das Yellow pages!”.
As gargalhadas se intensificam e todos fogem daquele que herdou o grande fardo.
Alguns se escondem nas árvores.
Outros nos matos.
Um se acha mais esperto e vai para casa, se proteger sob as asinhas da mamãe.
O tempo o suficiente para uma soneca.
Quando o interfone toca é um convite.
Um trecho reto entre o Bloco 4 e 5 é o local ideal para uma partida emocionante de Bett.
Um arremessador e um rebatedor de cada lado.
O objetivo é derrubar a latinha.
O segurança do Condomínio chega e tenta acabar com a festa, mas logo é persuadido a deixar os pequenos brincarem.
“Licença de Bett para dois para arrumar a casinha para dois!”, grita um sem perceber que a bolinha tinha sido rebatida longe, lá para a rampa.
Ou mais longe ainda, para a rua Toneleiros como poderia sugerir outro mais audaz.
Era a última bolinha e foram todos atrás.
O que encontram não era novidade.
Afinal o buraco do Tatu já havia sido desbravado anteriormente.
Diziam que neste momento esta caverna estava ocupada por vilões mais velhos.
Aqueles que conheciam melhor o sentido da malícia.
Melhor evitar por ora este local.
Melhor ir para casa e crescer, transformar-se em algo como pais e mães.
Sabendo que haverá o risco da nostalgia.

Mas o pesar está descartado, em seres que não foram.
Em seres que são
Cada momento... são.
Momentos felizes do passado se fundem com o presente e com o futuro.
E a riqueza deste todo
Foi chamada por uns felicidade.

Não há espaço para nostalgia...
----
-foto por Caio Amaral

domingo, 15 de abril de 2007

Levante ao novo


E ao se deparar com a origem de um medo
Não só entendeu a coragem
Mas a própria essência
como um todo.

Os bravos percorriam o trajeto norte da colina.
Os bravos caminhavam em linha reta explorando um caminho entre árvores, jamelões, e moitas ardilosas.
Criavam a nova rota, próxima ao muro cinzento, que dividia o feudo entre os ricos e os pobres.
Entoavam suas canções para mostrar uns aos outros o quão bravo eles um dia serão.
Apesar da valentia crescente eles sabiam o seu lugar. Não era a hora de figurar entre os grandes leões mais velhos.
Dois grupos de infantes esparramados pelo gramado. Um ancião, do alto da sua visão, determinou a natureza destes pequenos.
“Olha só para eles, são umas pulgas, não é mesmo?”
E estes pulguinhas se uniram, agora sob a égide da nova identidade firmada.
E da união vieram os que não se encaixaram, os rivais.
Ah os opostos! Eles vieram junto com o mundo não é mesmo?
Pequenos antagonistas, os baratas também seguiam desbravando o novo terreno que havia pela frente.
Pois aqui caminhavam os pulguinhas, pisando em terra, escalando árvores, montando bases estratégicas para possíveis ataques dos baratinhas.
A arquitetura na construção das cabanas evoluía, os brinquedos eram soldados.
Não havia um líder nos grupos. Haviam pretensos seres um pouco mais velhos que queriam desenvolver seus talentos de liderança neste cenário onde a tirania ainda não havia sido inventada. Estes talentos vem com o tempo de vida prática, e isso eles tinham de menos.
Bravos guerreiros, não se importavam de pisar o pé na lama e chegar em casa para trocar as vestes. Não molestava aquele corte tremendo provocado por um galho de árvore.
O sangue quando escorria era encarado de forma natural, e o desespero da mãe ao ver a ferida era digno de graça.
Mas eras se passavam e o ciclo perdurava. Os meninos se firmaram em casulos, prontos para a metamorfose.
O processo, tranqüilo para uns, não passou despercebido para outros que se rebelaram contra o seu processo natural.
A previsão do novo trouxe um medo inesperado e os pulguinhas se uniram aos baratinhas pela primeira vez, o resultado foi grandioso:
A primeira grande revolução!
O primeiro grande evento de rebeldia destes que nem sabiam o significado de uma revolução.
Os sinos dispararam, bombas explodiram, a luz foi cortada.
Em um movimento ousado um pequeno ex-pulguinha rastejou por altas lajes sabendo o que aconteceria se ele caísse daquela altura.
Chegou à casa das máquinas...

...e não soube o que fazer lá.

domingo, 1 de abril de 2007

Ecos da colina


Dizem as mais antigas lendas
Que uma menina resolveu escalar uma rocha.
Não era uma pedra qualquer.
Tampouco era grande.
Só que para aquela pequena menina aquele pedregulho se assemelhava a uma montanha.
Não havia razão para ela estar ali, na fronteira do local onde morava.
Fronteira delimitada por muros.
Que a protegia do mundo externo.
A pequenina não pensava muito, sua cabeça estava dominada pela mais bela imaginação.
Onde bonecas eram gente.
Que viviam em um castelo.
Pois aqui estava esta pequena donzela subindo aquela montanha, tomando cuidando para não escorregar na grama traiçoeira.
Mas o conhecimento vem com a experiência não é mesmo?
O ser humano descobre que queima quando bota a mão no fogo pela primeira vez.
E desta forma a nossa pequena heroína menosprezou o potencial daquela pedra.
Sem questionar ela foi, para derrotá-la, para alcançar o seu cume.
E sem saber bem porque, caiu.
Bateu com a cuca.
E ficou monga.

sábado, 24 de março de 2007

Os anos do sereno


A cada passo uma jornada
Cessam-se os passos chega-se ao fim.
Tudo o que resta
É o que não teve início.

Daqueles grandes amigos do passado que me deram valorosas dicas para a vida, sem precisar com isso dizer uma palavra, conto a minha bisavó, o meu papagaio, e o Heraldo.

Vovó Madalena já é falecida, o querido papagaio Lilico também.
Heraldo permanece firme e forte no seu posto de guardião do bloco 6.
Ele é um porteiro, mas não um simples porteiro.
Ele está no ilustre time de pessoas singelas que ajudaram a construir a história do Condomínio Mirante de Copacabana.
Tantas histórias entre estes muros, tantas vidas que vieram, cresceram. Que se foram.
Muitos moradores já partiram, a administração do local também é trocada regularmente.
Já o Heraldo está naquele seleto e querido time de funcionários que permanece desde de o início de tudo.
Igual a ele não são muitos. O porteiro do bloco 5, Francisco, o Paulo Salva-vidas... e mais alguns poucos.
É um fato extraordinário que esta pessoa tenha acompanhado a vida de toda uma geração com seus olhos experientes, sempre observando a criançada correndo de um lado ao outro. Um sorriso junto de uma saudação com a voz rouca eram suas marcas mais conhecidas.
Ele sempre esteve ali. Acompanhou a criançada criando uma nova brincadeira, seja o pique-ajuda, o pique-moita, o polícia-ladrão ou o prejú das yellow pages.
Viu com seus olhos de observador os primeiros casais pré-adolescentes começando a namorar escondido atrás dos blocos ou nas escadas.
A serenidade do olhar permanece inabalável.
Não se sabe muito da sua história, sabe-se que veio do nordeste tentar a sorte como tantos outros. Tem família embora ela seja pouco conhecida dos moradores do Mirante.
Aos poucos foi se tornando especialista no low-profile, só não se sabe se foi sempre assim. Vai saber se ele foi um jovem agitado, o que é difícil é imaginá-lo assim.
Não importa tanto saber se ele é fruto dos anos, da maturidade que para alguns chega, enquanto para outros custa a chegar. O que interessa é a relação do que ele se tornou com o seu redor.
É no mínimo curioso conceber o encontro de gerações e de temperamentos neste castelo residencial.
O jovem agitado arquetípico quer mudar o mundo. Está pegando fogo, carrega o mundo nas costas. Não percebe que tem que mudar a si próprio! Ele mora no Mirante e vê o porteiro ali parado, sentado no sereno da madrugada. As vezes um radinho tocando um forrózinho baixinho serve de companhia, as vezes nem isso. O Heraldo vai passar looongas horas ali quase sem se mexer. Seus pensamentos não serão um incômodo para si próprio, na verdade ele parece estar em harmonia com o seu ambiente.
Como ele consegue?
O jovem em outra sintonia poderia se enfurecer. Poderia dizer que o porteiro é um exemplo do pior do que o ser humano pode se tornar. Improdutivo, apático. Um servo dominado pelos mais fortes. Um escravo fruto da nossa cultura judaico-cristã.
Ou poderia ver além da camada superficial e emocional- notaria com isso o contentamento levado aos seus limites. Não há questionamento, a vida é assim e o que realmente estranho é alguém questionando os significados da vida.
Claro que esse não pode ser um modelo, algo a ser seguido. A simples tensão criadora já remeteria a algo diferente do que o Heraldo representa. E o mundo ainda precisa de novas idéias, de renovação.
Porém este ser é inabalável, mais forte do que aparenta. Vai inconscientemente contra o nosso modelo mental de força. É um amigo, através da simplicidade.
E se esta sua representação metafísica estiver indo muito além do que transparece a sua figura humana carnal há sempre a opção de sentar do seu lado e ouvir a voz cansada fazer uma piada sobre alguma namorada ou sobre algum acidente não muito sério do passado.
Afinal aquilo que era tão importante já não vai mais parecer tão importante assim...

domingo, 18 de março de 2007

Ritos de Passagem


Luzes do presente.
Eliminam o passado e o futuro...

1994. Ano hipotético que poderia ser qualquer um entre os turbulentos anos do fim da infância e início da adolescência.
O processo de amadurecimento de um homem nem sempre pode ser comparado ao de uma fruta.
Veja a goiaba, a flor que se transforma em pequeno fruto verde segue o seu padrão bem definido pela natureza e cresce até o momento de amarelar e deixar o seu galho de origem.
Para o jovem Georges o fato de escalar as árvores era algo corriqueiro, todos os da sua idade sabiam escalar os fortes troncos das goiabeiras. Porém, mesmo estas fortes árvores ofereciam um desafio: aquelas goiabas mais bonitas ficavam nos locais mais inatingíveis.
Poucos se arriscavam pois sabiam que tentar pegar aquele fruto do desafio poderia gerar como conseqüência uma queda dolorosa, quem sabe um osso quebrado.
O apoio era frágil e muita concentração era necessária. Um menino querendo se auto superar e provar a si mesmo que era capaz de superar as inseguranças típicas deste estágio da sua vida. Claro que estas coisas não passavam pela sua cabeça, nesta idade a razão não prevalece, somos mais como bichinhos que tentam entender suas emoções e uma racionalidade instável.
Georges Rodrigues Fernandes não era mais o mesmo. Um novo estágio se abriu quando ele deixou aflorar o macaco dentro de si e agarrou o fruto da auto superação. Primeiro foi a goiaba que estava no galho mais fino da goiabeira. Depois foi uma fruta chamada jamelão que conclamou o novo Ge a testar seus limites... esta deliciosa pequena púrpura-escura que zombava de todos com sua inacessibilidade. Cada galho foi conquistado ao seu tempo e quando ele alcançou a frutinha num galho de dificílimo acesso- numa altura equivalente a um prédio de quatro andares- os micos ao redor passaram a respeitá-lo. E neste momento ele se tornou o Mico-Gê.

Uma vitória é só uma pequena satisfação. Um desafio vencido dá a luz a um novo desafio e o recém Mico-Gê logo descobriu que teria que desbravar uma caverna escura e lamacenta num local secreto chamado G2.
De tantas provas a única coisa inesperada foi que este novo Mico, junto de outros companheiros, chegasse ao ponto de encontrar uma caminho para as estrelas...
Mas essa já é outra história.